Entrevista a Isabel Ozório

Janeiro 08, 2018

Após uma experiência de seis meses na Nova Zelândia, onde representou os Ardmore Marist e os Counties Manukau, Isabel Ozório está de regresso a Portugal. Em conversa com a Federação Portuguesa de Rugby, a habitual capitã da Seleção Nacional conta como foi a aventura na terra dos All Blacks e das Black Ferns, e fala sobre o futuro do rugby feminino em Portugal.


FPR – Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou à Nova Zelândia e como foi a sua adaptação ao clube para onde foi jogar e à sociedade neozelandesa?

Isabel Ozório: Mal cheguei a Auckland senti logo o peso do rugby na país, não só pela digressão dos Lions à Nova Zelândia, como pelos jogos de Junho das Black Ferns a antecederem o Mundial em Dublin. Por todo o lado via publicidade, bandeiras, informações com os jogos. Tudo alusivo a estes 3 grandes acontecimentos. Surpreendeu-me a quantidade de publicidade envolvendo o rugby, os All Blacks e as Black Ferns, provando que são, de facto, exemplos reconhecidos pela sociedade. O primeiro contacto com o clube foi engraçado, porque estava mau tempo e os campos estavam todos fechados na região dos Counties, então treinamos no que eles chamam de "turf"- um campo de ténis com uma espécie de relva artificial.



- Começou nos Ardmore Marist, mas depois representou os Counties Manukau. Como se proporcionou a oportunidade de alinhar por estes clubes neozelandeses?

- Sempre tive o sonho de jogar na Nova Zelândia, mas fui adiando a ideia nos últimos anos por incompatibilidades pessoais, desportivas e profissionais. Até que, este ano, achei que era a altura certa, e sabia que bastava falar com o meu amigo e jogador Kane Hancy, gerando-se assim a oportunidade. O meu grande objetivo era jogar pelos Counties Manukau, que era a equipa campeã em título da Nova Zelândia. Para isso, tinha que jogar por um clube representativo da região. Por indicação dele, fui representar o Ardmore Marist, clube com várias Black Ferns e uma equipa técnica de muita qualidade. Posteriormente, foi feita uma convocatória para os Counties, onde tive o privilégio de ter sido uma das escolhidas.


- Como foi a experiência durante a época?

- Foi especial! Diverti-me muito a treinar e jogar. A equipa é conhecida por ter uma cultura muito característica. Tínhamos músicas e coreografias para fazer, imensos rituais que as jogadoras propunham, e toda a equipa fazia. Uma cultura muito positiva que encaixa bem naquele povo e nos faz estar ainda mais unidas. Foi muito exigente a nível técnico, tático e mental, mas muito enriquecedor. Treinar e jogar com jogadoras campeãs do Mundo é uma oportunidade para nos pormos a prova, aprendermos muito, sermos mais exigentes, mas acima de tudo desfrutar do jogo!

- Num nível competitivo superior e sendo que em Portugal as competições femininas são maioritariamente em sevens, como foi jogar rugby de XV?

- Foi uma época diferente. O tipo de treino, a preparação para os jogos, a terceira parte, são muito diferentes daquilo a que estava habituada em Portugal. A nível de clube foi bom para ter o primeiro contacto, mas foi claramente na época provincial que aprendi mais, fui posta à prova e me superei. O nível de “skills”, intensidade, conhecimento de jogo é altíssimo, mas era exatamente isso que procurava, porque sabia que só assim ia ser divertido e valer a pena!


- Como funciona o rugby feminino na Nova Zelândia?

Nas escolas, as crianças jogam juntas até aos 10/12 anos o “rippa rugby” - o nosso tag rugby -, passando depois ao rugby com contacto e à separação de género. A maioria das escolas da região tem equipa feminina, de um ou mais escalões de idade. Aos 16/17 anos jogam a nível escolar, mas também em clubes. A equipa do ano da World Rugby e da própria federação neozelandesa foram as Black Ferns. Tanto a equipa de XV como a equipa de sevens, que foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos, são modelos no país. Todos os jogos internacionais e a maioria dos provinciais passam na televisão, e a vontade de envolver raparigas e mulheres no desporto é cada vez maior, seja em jogadoras, treinadoras, árbitras e dirigentes. Sabem que é o futuro. E já se fala em passar competições amadoras para profissionais.



- A Isabel fez parte de uma geração de jogadoras que surpreenderam pela positiva e que esteve a um passo do apuramento para os Jogos Olímpicos de 2016. Como avalia a evolução da Seleção nacional feminina desde essa altura?

- Embora não tenha podido estar diretamente envolvida, por ter estado na Nova Zelândia, a única coisa que posso dizer é que os resultados do grupo que representou a Seleção Nacional foram atingidos por uma superação gigante. Só quem está dentro do processo sabe o significado que teve. Continuar a poder competir ao mais alto nível europeu é fulcral para o rugby e para o nosso desenvolvimento interno. Mas, acima de tudo, é a pensar em elevar o nome de Portugal e nas raparigas que um dia poderão vir a ser Lobas terem as mesmas ou ainda melhores oportunidades.




- De regresso a Portugal, quais os seus objetivos para o futuro?

- Acima de tudo, quero continuar a divertir-me e a evoluir como jogadora e como pessoa, tanto no clube como na Seleção.



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