Entrevista a Catarina Antunes

Janeiro 08, 2018

A FPR falou com Catarina Antunes, uma das mais experientes jogadoras nacionais, sobre a sua passagem pela Nova Zelândia. A internacional portuguesa relata como foi a sua adaptação e conta como é vivido o rugby em terras neozelandesas.


FPR: Como foram os primeiros tempos na Nova Zelândia e a adaptação à equipa?

Catarina Antunes: Confesso que ia um pouco nervosa! Ia para um país novo, sozinha e onde não conhecia ninguém… Mas esse nervosismo não durou muito, felizmente, pois fui muito bem recebida desde o primeiro dia. Quando cheguei fiquei uns dias em casa do manager da minha equipa que me mostrou logo a cidade e me apresentou a imensas pessoas ligadas ao rugby, e ao meu clube. Dois dias depois já estava a jogar por North Otago um jogo de pré-época. E assim conheci as que seriam as minhas futuras colegas de equipa.



Como surgiu a oportunidade de ir jogar para a Nova Zelândia?

- Inicialmente joguei pela equipa de North Otago, na região de Oamaru, e só depois passei a representar Otago Spirit. A oportunidade surgiu através do contacto do Selecionador Nacional, João Mirra, e de Colin Jackson, CEO da federação da North Otago, que tinha interesse em recrutar jogadoras de outros países para a equipa feminina.


Como foi a experiência durante a época?

- Foi única! Ter a oportunidade de viver e jogar rugby na Nova Zelândia é algo que nunca vou esquecer. Fiz grandes amizades na equipa de North Otago e esta foi a época em que a equipa teve melhores resultados. É um orgulho ter podido participar e contribuir para tal feito. Depois do campeonato regional ter terminado, fui convocada para os treinos de Otago Spirit, a equipa representativa da região de Otago, e acabei por ser selecionada para a equipa que iria disputar a Farah Palmer Cup, o campeonato nacional neozelandês. Aqui, para além do nível competitivo ser ainda melhor, joguei a uma posição relativamente nova para mim… ponta! A par do rugby, um dos momentos altos da minha experiência foi a visita dos meus pais, que coincidiu com o tour dos British and Irish Lions. Para além de ter visto ao vivo, em Dunedin, o jogo em que os Lions foram batidos pelos Highlanders, o momento alto foi claramente em Wellington, quando assistimos à vitória dos Lions sobre os All Blacks. Apesar de não ser o resultado que eu desejava!



Como foi jogar na variante de XV num país com um nível competitivo superior?

- Jogar rugby de XV foi uma das principais razões que me levou a aceitar o desafio de ir para a Nova Zelândia e claro, não me desiludiu. A velocidade, a leitura de jogo e principalmente a fisicalidade são muito superiores em relação ao nosso rugby e diverti-me imenso. Foi muito bom matar saudades de rugby de XV e logo na Nova Zelândia. Para além de que aprendi imenso, não só tecnicamente, mas também sobre a cultura e a forma como os neozelandeses vivem o rugby. Agora, só espero conseguir transmitir e aplicar cá um pouco do que aprendi.  


Qual o actual estado do rugby feminino na Nova Zelândia?

- Por muito estranho que possa parecer, ainda tem muito por onde crescer, principalmente em relação ao número de jogadoras. Desde a introdução dos sevens nos Jogos Olímpicos que os números têm crescido, mas o desporto “rei” no feminino ainda continua a ser o netball ou o hóquei em campo. E a verdade é que pelas duas ilhas existem cerca de 26 federações regionais de rugby, mas apenas 11 têm condições e jogadoras suficientes para participar na Farah Palmer Cup, o campeonato nacional. No entanto, com os bons resultados que as seleções femininas têm tido, tanto em XV como em sevens, a aposta, o investimento e a divulgação das seleções nacionais e regionais tem crescido bastante tal como o número de adeptos. E isso foi bem evidente durante o Campeonato do Mundo de XV disputado em Agosto, na Irlanda, em que todos os jogos foram transmitidos em direto na televisão e se ouvia por todo lado adeptos a comentar a prestação das Black Ferns!



Como tem sido o desenvolvimento do rugby feminino em Portugal?

- Penso que a evolução é positiva tendo em conta a renovação que a Seleção Nacional fez desde o torneio de repescagem mundial para os Jogos Olímpicos em 2016 e o número de jogadoras que apenas teve a sua primeira internacionalização no último GPS. Espero que esta evolução se mantenha e perdure, e que os órgãos federativos continuem a apostar e a investir nesta seleção porque acho que já demos provas que existe talento e que queremos e temos capacidades para continuar a surpreender.


Foto: Miguel Carmo


De volta a Portugal, quais os seus objetivos para o futuro?

- Agora que sosseguei este desejo de jogar noutro país e após oito anos na Seleção Nacional, o meu principal objetivo é terminar o último ano de Medicina. E claro, continuar a jogar rugby pelo Benfica durante mais uns bons anos.



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